Publicado: setembro 5, 2011 em confissões desesperadas

agente não se apega de verdade aos detalhes de uma casa
até sentirmos a dor de ter de desmontá-la
você não reconhece os esmeros de sua mulher
até começar a arrancá-los um por um,
os quadros nas paredes, os pingentes nas janelas, as pequenas peças de enfeite
pela primeira vez você sente vontade de chorar
porque nunca tinha reconhecido como outros homens trabalharam
para erguer este casulo onde você se abrigou por tanto tempo
seu medo não é nem tanto o de deixar a vida de lagarta
é saber que a vida de borboleta é muito breve

agosto/ setembro

Publicado: setembro 5, 2011 em confissões desesperadas

a amoreira de nossa casa está novamente carregada
tive um filho
plantei muitas árvores
escrevi meia dúzia de livros
não publiquei nenhum
estou novamente sem emprego

Publicado: agosto 17, 2011 em confissões desesperadas

a noite é para se fazer silêncios
os ruídos cabem ao dia

Publicado: agosto 17, 2011 em confissões desesperadas

a realidade é um hábito conceitual
o mundo é uma parede de enfermos

Publicado: agosto 17, 2011 em confissões desesperadas

A jornalista da TV diz “Boa Noite”.

Minha mãe responde “Boa Noite”.

No fim, estamos todos nas mãos
de um deus velho
metódico
careca
tímido
sem iniciativa

que não entende nada de poesia

.

Publicado: agosto 17, 2011 em isso sem dúvida não pode ser chamado de poesia

quando saio
não baixo a cabeça
o espaço não me oprime

ando sozinho
mas só piso fora quando tem orquestra tocando
e quando passa uma marcha militar de anjos

vou pisando os pés das nuvens
o pó das estrelas

ergo a cabeça do sol
ranco a espada da lua
chuto o pau que sustenta a barraca do globo
e mando calar a boca do rei do mundo